Os cérebros prateados de Fritz Leiber

12 de junho de 2017




Os cérebros prateados
Autor: Fritz Leiber
Editora: FC Hemus
Edição: 1979
Páginas: 220
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Num futuro indefinido, os escritores não mais existem, com os livros sendo produzidos por máquinas sob o controle de homens que são chamados de escritores, mas que não criam verdadeiramente nada. São obrigados a vestir-se e agir de acordo com a publicidade imaginada pelos editores, enquanto as máquinas despejam milhares de livros por dia. Os escritores revoltam-se e demolem todas as máquinas, exigindo o direito de escrever suas próprias histórias, mas quando a revolução triunfa, percebem que não têm o que dizer, e se tiverem, não sabem como transformar em livros. Os editores surgem então com a ideia de utilizar os cérebros – literalmente, cérebros de escritores do passado mantidos vivos – para criar as histórias. Ainda que o enredo não esteja entre os melhores, é uma boa sátira ao mundo editorial, com humor bem elaborado, e farpas sobrando para todos.

Os cérebros prateados de Fritz Leiber foi uma experiência tão peculiar e interessante que eu gostaria que um número enorme de leitores tivesse a chance de conhecer o livro. Num futuro onde as máquinas são criadas para escrever livros em ritmo frenético, a história começa com uma greve de autores que resolvem queimar todas as fábricas de palavras. No entanto, há várias gerações já não se escreve mais como antes e Os cérebros prateados apresenta o dilema já nas primeiras: de onde virão novos livros para consumir?

A história é narrada em 3ª pessoa e o leitor acompanha Gaspard, um escritor assalariado e seu amigo robô Zane. Namorado da idealizadora da greve, o protagonista não entende como os autores foram capazes de destruir as fábricas de palavras. Desesperado, Gaspard procura pelos donos da editora, mas percebe desde o princípio que a preocupação deles não é tanta quanto deveria. Ou há muitos segredos por trás da indústria dos livros.



A partir daí Fritz Leiber desenvolve uma forte crítica ao mundo editorial, questionando tanto a atitude dos editores, quanto dos próprios autores. Mesmo no contexto do futuro, que é extremamente tecnológico, o tema é pertinente aos nossos dias, claro, já que coloca em discussão a criatividade x a escrita de forma automática e preestabelecida. Neste mundo os autores são pagos para ter um visual extravagante, de acordo com o tipo de história que “escrevem” e operar as máquinas de palavras, enquanto o computador é o verdadeiro responsável por organizar a história de acordo com uma combinação de palavras e as sugestões prováveis a partir delas.

Apesar de não ter empatizado com Gaspard, o personagem é interessante porque não se vê em nenhum grupo: nem defende os autores que se acham injustiçados, mas na verdade não sabem escrever; e também não compreende os editores que não demonstram grande desapontamento pelo que aconteceu, com os incêndios e a destruição das fábricas de palavras. Ao longo do livro Gaspard corre de lá para cá tentando se situar dentro da nova realidade: talvez não haja livros inéditos para ler nos dias que virão


Outra discussão que Fritz Leiber traz para o enredo é a qualidade da leitura. Pelo que o autor dá a entender, os livros criados pelas as fábricas de palavras são para entretenimento, consumo rápido e apelo sexual, já que toda sociedade do livro parece ser extremamente ligada ao sexo, inclusive os robôs. Os autores antigos, o que conhecemos como clássicos da literatura, são repudiados e pouco entendidos. O produto livro tem uma nova significação na história (como podemos encontrar em outros livros futuristas também).

Uma citação especial ao robô Zane, meu personagem preferido e amigo de Gaspard. Aliás, Gaspard é considerado estranho por interagir com robôs. Mesmo vivendo na mesma sociedade, os humanos tem uma visão restrita quanto ao contato com as máquinas. Inclusive os livros consumidos por robôs são diferentes dos humanos, assim como as edições e livrarias. No final das contas, o grande plano do livro é de Zane e eu adorei.



Por fim, para resolver o problema da falta de livros os editores revelam um segredo da indústria que também vou manter em sigilo para aguçar a curiosidade de vocês, mas basicamente introduz outros dilemas éticos, desta vez envolvendo a medicina e a vida humana, a um livro cheio de conflitos sociais incrivelmente (e assustadoramente) atuais (minha edição é de 1979 e o copyright da obra de 1961).

Os cérebros prateados ganhou três estrelas no Skoob. Eu adorei a leitura, mas tive alguns altos e baixos principalmente porque o enredo tem um desenvolvimento lento e as cenas de ação estão especialmente na parte final, no desfecho da história. Fritz Leiber colocou muitos temas importantes em debate no livro e apresentou um desfecho que agradou a todos os personagens parcialmente, mas as decisões éticas, as consequências por cada atitude são questionáveis e tema para muito debate. Qual livro de ficção científica vocês recomendam?

Beijos!

Fotos: Nine Stecanella