O mulato de Aluísio Azevedo

27 de maio de 2017




O mulato
Autor: Aluísio Azevedo
Editora: Companhia Editora Nacional
Edição: 2004
Páginas: 264
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Depois de se formar em medicina na Europa, o sedutor Raimundo retorna à sua cidade natal, São Luís do Maranhão. Ele e a prima Ana Rosa logo se apaixonam, mas, para a rígida sociedade do século XIX, seu amor era proibido. A razão? Ana Rosa, jovem branca, oriunda de uma família tradicional e preconceituosa.

O mulato conta a história de Raimundo, jovem de vinte e poucos anos que vai ao Maranhão para resolver assuntos legais sobre sua herança. Sua intenção, de volta ao Brasil depois de um período na Europa, é se estabelecer no Rio de Janeiro, mas ao chegar à casa de seu tio apaixona-se por sua prima, Ana Rosa, e a partir daí os planos de Raimundo vão mudar. O leitor acompanha na trama o desenrolar de segredos familiares o como isso vai influenciar a vida do protagonista.

Já nas primeiras páginas Aluísio Azevedo apresenta a sociedade do Maranhão, os costumes, hábitos, eventos sociais e também preconceitos. Assim que Raimundo pisa em São Luís a crítica do livro começa: antes mesmo de qualquer palavra, o protagonista foi julgado e categorizado: é mulato, filho de escrava, educado no estrangeiro com ar superior, não faz parte daquele mundo nem da casa de Manuel Pescada.



Ana Rosa impressiona-se com o primo imediatamente, especialmente porque Raimundo não lhe dá atenção quando chega na casa e é diferente de tudo o que vê no Maranhão. O pai já em arranjo adiantado de casamento com um de seus melhores vendedores não tem intenção de mudar de planos quando o romance entre filha e sobrinho ameaça a honra da família. Ana Rosa aventura-se pelo quarto do primo, mas Raimundo pede a sua mão para o tio e é ai que as coisas começam a afundar para o protagonista.

Apesar do título O mulato, a revelação, com todas as letras e todos os preconceitos que existem sobre Raimundo demora um pouco a acontecer. E é justo pela boca de seu tio, uma figura tão querida para o personagem, que tudo é revelado. A partir daí ele entra em uma melancolia perturbadora. Raimundo tem um desejo enorme em descobrir quem é sua mãe e os detalhes de seus passado, então parte em busca de respostas.


Um aspecto importante que não comentei até aqui é a influência do clero na família, na figura de um padre íntimo dos personagens, e a perversidade da vó de Ana Rosa com seus escravos. Ao mesmo tempo que sente prazer em maltratar quem considera inferior, a velha passa horas rezando como se pudesse compensar a crueldade de alguma forma. O desfecho da história está ligado diretamente ao interesse desses dois personagens, e alguns outros que se beneficiarão com certas decisão. A crítica de Aluísio Azevedo sobre religião me deixou muito pensativa e entendo todos porquês.

- Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa, mas é por tudo! A família de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! O senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção contra mulato!... Nunca me perdoariam um tal casamento; além do quê, para realiza-lo, teria que quebrar a promessa que fiz à minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descente de portugueses!
página 175
*O tio para Raimundo

Se soubesses, porém, quanto custa ouvir cara a cara: “Não lhe dou minha filha, porque o senhor é indigno dela, o senhor é filho de uma escrava!” Se me dissessem: “É porque é pobre!”, que diabo! Eu trabalharia! Se me dissessem: “É porque não tem uma posição social!” Juro-te que a conquistaria, fosse como fosse! “É porque é um infame! Um ladrão!Um miserável!” eu me comprometeria a fazer de mim o melhor modelo dos homens de bem! Mas um ex-escravo, um filho de negra, um mulato! E, como hei de transformar todo meu sangue, gota por gota? Como hei de apagar a minha história da lembrança de toda essa gente que me detesta?... Bem vês, meu amor, tenho posição definida, não me faltam recursos para viver em qualquer parte, jamais pratiquei a mínima ação desairosa que me envergonhe; e no entanto nunca serei feliz porque só tu és a minha felicidade e eu nada devo esperar de ti! Ah, se soubesse, Ana Rosa, quanto doem estas verdades... perdoarias todo o meu orgulho, porque o orgulho de cada homem de bem está sempre na razão do desprezo que lhe votam!
página 214
*Raimundo para Ana Rosa

A questão racial certamente é o tema principal do livro e aliado a figura de Raimundo também a aversão a educação ou costumes estrangeiros. A sociedade do Maranhão e seus julgamentos tem muita influência nas decisões da família e o protagonista está condenado desde o desembarque, essa é a verdade. Eu torci muito por um final positivo para Raimundo, mas já na reta final do livro é possível perceber que isso não vai acontecer.

Raimundo é do início ao fim um personagem admirável e honrado, e eu me comovi muito com sua tragédia. Além disso, Aluísio Azevedo conseguiu me inserir no enredo de tal forma que eu me vi naqueles cenários, especialmente porque o primeiro parágrafo descreve o tempo quente do Maranhão e vocês sabem o quando eu adoro calor e o quanto espero visitar São Luís também.



Minha nota para O mulato foi de quatro estrelas no Skoob porque eu realmente queria um final alternativo para Raimundo. A mensagem do livro é conformista e realista, eu entendi tudo o que aconteceu e porquê, e como torci do início ao fim pelo protagonista conclui a leitura um pouco mais triste.

Eu já comentei diversas vezes que O cortiço, também de Aluísio Azevedo, é um dos meus livros favoritos de literatura clássica brasileira e por isso tinha certo receio em conhecer O mulato. Ainda bem que tirei da estante, porque a experiência foi sensacional e ainda conheci um cenário diferente entre as leitura do projeto clássicos brasileiros e de língua portuguesa. Anteriormente as histórias do Brasil tinha como cenário o Rio de Janeiro. O mulato se passa no Maranhão. Vocês já leram o livro?

Vídeo de opinião sobre O mulato postado no canal do Estante da Nine

Beijos!

Foto: Nine Stecanella
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