Giovanni de James Baldwin

26 de novembro de 2017



Giovanni
Autor: James Baldwin
Editora: Abril Cultural
Edição: 1981
Páginas: 208
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Dramática viagem através do submundo da homossexualidade masculina. Na trajetória amorosa de Giovanni e David - principais personagens do romance de James Baldwin - onde não faltam os sentimentos comuns aos relacionamentos heterossexuais, a insofismável assertiva: o amor é passível de crises e dúvidas, mas nunca de objeto de culpa ou anormalidade.

Giovanni de James Baldwin foi outra ótima experiência com a coleção Grandes Sucessos da Abril Cultural e estou ansiosa para continuar e aumentar meu acervo. Depois dos comentários no projeto Leitura todo dia, e vídeo para o canal já que o livro está recomendado no 1001 livros para ler antes de morrer, hoje é dia de bater um papo no Estante da Nine sobre esse drama sobre a falta de aceitação.



O livro narrado em primeira pessoa retrata a vida de David principalmente no período em que vive em Paris (mas também apresenta um panorama da infância e adolescência do personagem), onde mora e se envolve com o italiano Giovanni. Sem aceitar seus gostos reais, David não tem intenção de manter um relacionamento com Giovanni e isso leva os dois protagonistas a um convívio destrutivo.

Começo essa experiência de leitura citando que o tema mais significativo do livro sem dúvida é a aceitação. No caso, a falta dela. David passa uma noite com outro garoto na adolescência e entende a partir dali que gosta de homens, mas não se identifica dessa maneira, não pode vencer a barreira social que diz que homens e mulheres é quem devem ter uma relação e vive com o dilema de se revelar e a infelicidade de não ter coragem para isso o livro todo.

- Talvez tudo de mau que nos acontece vá enfraquecendo a gente - respondeu Giovanni, como se não houvesse escutado minhas palavras - e por isso a gente aguenta cada vez menos.
páginas 135

Além do envolvimento de David com Giovanni, o protagonista mantém uma relação a distância com a jovem Hella, com quem pretende casar. Mesmo sabendo que gosta de homens e é mais feliz e completo em uma relação gay, David parece insistir em caminhos que parecem fáceis para resolver a questão da aparência, sem se dar conta que seus próprios atos entregam que algo não está nada bem.

A visão de David leva o leitor as noites e ao submundo de Paris, onde jovens gays são aliciados e comprados por figurões depravados, reproduzindo muitas cenas que acontecem com mulheres. Nesse aspecto o livro é bem realista em mostrar o tipo de chantagem e troca de favores que há entre pessoas desse meio e como muitas vezes jovens são facilmente seduzidos por uma vida fácil, mas que no momento oportuno cobra seu preço. O tom melancólico predomina o livro.



Ser estrangeiros em Paris é outro tema recorrente da narrativa, já que Giovanni e David são estrangeiros, um italiano e outro americano, e os personagens nativos não esquecem o fato de que os jovens viajam para longe de casa para viver a liberdade que não se permitem perto da família. A medida que a volta de Hella para Paris se aproxima, a relação de David e Giovanni definha, indicando um desfecho no mínimo dramático.

James Baldwin encerra a historia de David com os principais personagens que ele tem contato ao longo do enredo, mas sua própria situação, dilemas e dúvidas ficam abertos. No momento final da leitura isso me chateou, mas pensando agora, com tudo que aconteceu, pode ser que no final das contas a vida em Paris tenha sido um pequeno capítulo na história da vida de David. Há algumas (várias) interpretações possíveis.

Seja lá como possa parecer agora, tenho de confessar; eu o amava. Não creio que possa vir a amar outra pessoa tanto quanto a ele. E isso poderia constituir um grande alívio, se eu também não soubesse que, quando a lâmina houver caído, Giovanni sentirá alívio, se puder sentir alguma coisa.
página 138

Giovanni foi uma ótima experiência principalmente por refletir sobre o incomodo de não se aceitar. No caso de David é sobre sua sexualidade, mas a história serve como analogia para qualquer desconforto ou padrão que não seguimos ou que não é esperado de nós. Numa época tão cheia de preconceitos é mesmo um desafio, mas ser feliz é meta e isso só é possível sendo verdadeiro, né?! Leitura recomendadíssima.

Vídeo de opinião publicado no canal do Estante da Nine

Beijos!

Foto: Nine Stecanella
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