Iaiá Garcia de Machado de Assis

21 de dezembro de 2019




Iaiá Garcia
Autor: Machado de Assis
Editora: Editora Globo
Edição: 1997
Páginas: 172
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Iaiá era filha de Luís Garcia, viúvo e funcionário público, que nela concentrava todos os seus afetos, a fonte de toda a alegria do pai. Luís Garcia tem uma amiga, também viúva, Valéria Gomes, mãe de Jorge. Jorge está apaixonado pela filha de um ex-empregado de seu falecido pai, Estela, que vive na mesma casa. Para afastá-lo de Estela, por não a julgar digna de sua posição social, a mãe força-o a alistar-se como voluntário para lutar na Guerra do Paraguai.

Ambientado no Rio de Janeiro em meados do século XIX, Iaiá Garcia começa no ano de 1866 e por cerca de 10 anos acompanha três famílias que estão ligadas e influenciam a vida de uma e outra constantemente. Os personagens principais são Luís Garcia e sua filha Iaiá (e o escravo liberto Raimundo); Valéria e o filho Jorge; e Antunes pai da adolescente Estela. Todos vivem no bairro de Santa Tereza, cenário do livro.



O enredo de Iaiá Garcia é dividido em dois momentos. Na primeira parte, quando a protagonista ainda é criança, Machado de Assis conta a história do romance mau sucedido entre Jorge e Estela. Ele é filho da influente Valéria, viúva de um expoente da cidade. Já a adolescente, protegida da família, é filha de Antunes, que por toda a vida prestou serviços ao pai de Jorge e por isso a proximidade com a família.

A primeira parte do livro é toda sobre um romance impossível entre dois jovens. Jorge, apaixonado por Estela, faz de tudo para que a moça o note sem perceber a rejeição da mãe e o orgulho de Estela, que apesar de corresponder ao amor de Jorge sabe que jamais será aceita como igual por Valéria, também responsável por sua boa criação.

Era orgulhosa, tão orgulhosa que chegava a fazer da inferioridade um auréola. (...) Simples agregada ou protegida, não se julgava com direito a sonhar outra posição superior.
página 26 (descrição de Estela após perceber o interesse de Jorge)

Valéria, inconformada com a situação, envia Jorge para lutar na Guerra do Paraguai, uma alternativa para abafar o romance e fazer com que o jovem, ainda sem rumo, tenha algum propósito na vida (caso escape da morte). Livro da fase romântica de Machado de Assis, Iaiá Garcia é cheio de momentos dramáticos e sentimentos a flor da pele, ao mesmo tempo que apresenta figuras extremamente humanas.



No segundo trecho do livro, com Iaiá jovem e Jorge maduro, a aproximação dos dois, influenciada também pela amizade e confiança entre Luís Garcia e Jorge, se torna um romance, esse com equilíbrio social, sem tantos obstáculos, mas ainda com resquícios de tristeza, já que camadas dos personagens vão de revelando conforme a maturidade chega.

Iaiá tinha por si a beleza e a instrução; podia não ser bastante para lhe dar casamento e família. Uma profissão honesta aparava os golpes possíveis da adversidade.
página 8 (sobre Iaiá, ainda na apresentação da personagem)

Além da ambientação em um período da história que eu adoro, Iaiá Garcia tem muitos traços sociais ainda presentes no Brasil. Lançado em 1878, o livro traz temas ainda atuais como preconceito racial, social e econômico, e como regras sem fundamento causam infelicidade coletiva, o orgulho leva a ações impensáveis e inconsequentes e como a juventude pode, por impulso, arruinar toda uma vida.

Escolho a guerra, a fim de que se alguma cousa me acontecer, ela sinta o remorso de me haver perdido.
página 16 (Jorge sobre a rejeição de Estela e a decisão da mãe, parte 1 do livro)

Outro ponto importante de se observar é que a obra transcorre em um período pré-abolição da escravatura. Luís Garcia e Iaiá têm como companheiro o negro livre Raimundo, e apesar do cuidado de Machado de Assis em incluir um negro já com carta de alforria e voz, para outros personagens o relacionamento e empatia não são os mesmos que o da família Garcia.

As personagens femininas são o ponto alto do livro. Valéria é a figura de aço que com o decorrer dos anos remoí decisões do passado. Estela, orgulhosa, abdica do amor por não aceitar a diferença social, a rejeição e os julgamentos de interesse. Na segunda parte do livro assume um relacionamento racional, porém coerente, atitude que não agrada o pai interesseiro que sempre buscou um pretendente rico para a filha. Estela, apesar de não dar nome ao livro, é a personagem feminina mais presente e relevante no enredo.



Iaiá Garcia também tem sua parcela de responsabilidade para essa extensa indicação do livro no Estante da Nine. Através da personagem o leitor tem a chance de acompanhar uma criança que tinha tudo para ser mimada e aproveitadora, mas que se torna uma moça perceptível e atenciosa, sem deixar de lado seus desejos e opiniões. Como no início da história, ao final do enredo novamente a vida de todas as famílias está conectadas.

Iaiá Garcia foi outra boa experiência com Machado de Assis, meu autor brasileiro clássico favorito. Os elementos da fase romântica do autor ficam evidentes nos momentos dramáticos e sentimentais e perceber essas diferenças também é um bônus da experiência de leitura.

Para quem gosta de histórias de amor é uma indicação certa, assim como personagens femininas interessantes. Depois de ler Iaiá Garcia me interessei por Helena e deve ser uma das próximas histórias do autor a aparecer por aqui. Já leu Machado de Assis? Qual leitura recomenda?

Beijos!

Fotos: Nine Stecanella
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2 comentários

  1. Excelente resenha 💖 Eu já te falei que amo Machado, e li Iaiá pelo menos umas 4 vezes. Acho Iaiá uma personagem leve, sem hipocrisias. E Estela é uma fofa. Esse livro tem tudo, alegria, tristeza, suspense.

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    1. Esse livro foi uma delícia de ler, também concordo e trás muitos sentimentos em personagens verdadeiros por demais! <3

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