Parque Gorki de Martin Cruz Smith

25 de junho de 2018



Parque Gorki
Autor: Martin Cruz Smith
Tradutor: A.B. Pinheiro de Lemos
Editora: Record
Edição: 1981
Páginas: 384
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Um assassinato triplo em pleno centro de lazer de Moscou, o Parque Gorki: três cadáveres congelados há meses, com rostos mutilados e dedos cortados, são descobertos quando a primavera chega e toda a neve acumulada no inverno começa a derreter.Um desafio e tanto para o investigador Arkady Renko. A trama é fascinante e se desenrola até o fim do romance com desdobramentos surpreendentes. Este livro foi adaptado para o cinema com o título de Mistério no Parque Gorki, com William Hurt no papel principal.

Parque Gorki se destacou na estante do sebo assim que parei na frente dela, não sei se pela lombada branca com fonte vermelha, ou pelo nome estranho que na hora me fez pensar na Rússia. O fato é que eu precisava trazer o livro para casa e claro que ele veio comigo no mesmo dia, há alguns meses (ou já seria um ano agora?), e hoje compartilho com vocês como foi a experiência de leitura com a história de Martin Cruz Smith. Spoiler: valeu muito a pena!

A história tem como ponto de partida um crime – à primeira vista é um enredo de mistério policial. E é muito mais que isso também. Três corpos são encontrados abaixo de uma camada de gelo no Parque Gorki, região movimentada e improvável para assassinato, e muitas peculiaridades cercam a cena do crime e o envolvimento de diversas autoridades (ok, é o KGB), fazem com que o protagonista e investigador da sessão de homicídios de Moscou - Arkady Renko, tenha interesse especial em encontrar a resposta do quebra-cabeças.



O livro começa com a parte policial em alta, e depois de alguns capítulos as pistas indicam os temas que Martin Cruz Smith pretende desenvolver na história. O crime é só um gancho para debater assuntos mais amplos como política, comércio e contrabando internacional, capitalismo e socialismo, e o dilema pessoal do personagem entre manter sua honra ou se filiar a uma causa que não necessariamente acredita.

Era engraçada a história das orelhas. Os russos aceitavam o estupro e o massacre como consequências normais da guerra. Acreditavam sem a menor hesitação que os americanos tiravam escalpos e os alemães comiam crianças.
página 42

Não vou mentir que em vários momentos o enredo foi enfadonho, fiquei com o livro por várias semanas e demorei muito mais para concluir do que gostaria, mas ao final de tudo eu gostei demais da história de Martin Cruz Smith, tanto por me apresentar um cenário que já gosto, mas não conheço tanto – que é a Rússia, quanto por me desafiar como leitora a encarar uma história diferente do que normalmente leio. Bônus de comprar livros no sebo.



Outro destaque que quero mencionar sobre Parque Gorki é o tanto de reviravoltas. Não posso (ou não devo) comentar em detalhes o que são os acontecimentos, mas depois de vários capítulos de calmaria, em que Martin Cruz Smith parece saciar o leitor com uma boa dose de informação, vem um combo de: “Peraí, não é nada disso que tu tá pensando. Tem muito mais embaixo do pano.”

Arkady Renko é um motivo a mais para gostar de Parque Gorki. Não simpatizei com o personagem imediatamente, principalmente porque a personalidade do senso comum de um russo parece se afastar imensamente da de um brasileiro, por exemplo, e a medida que fui conhecendo sua história, dia a dia, família e trabalho pude admirar o protagonista de Martin Cruz Smith. Humano, idealista sem ser pedante, esquisito aos colegas de trabalho e rejeitado pelo pai, militar aposentado, Renko vive todo dia as tretas da vida que a maioria de nós deve enfrentar, independente da realidade, e também com uma dose extra de perigo.

Sua declaração era típica dos papéis contraditórios da polícia numa sociedade capitalista: um papel como guardião da paz conflitando com o papel principal de cão de guarda da classe exploradora.
página 168

Capitalismo e socialismo é claro que são temas recorrentes na trama, principalmente porque o autor parece fazer um esforço para mostrar que apesar de tão distante essas duas ideologias parecem muito mais próximas quando vividas na prática, por isso achei muito importante Martin Cruz Smith desenvolver personagens americanos na Rússia, bem como russos patriotas e outros que querem escapar do país. Lançado no início dos anos 1980 no Brasil, o livro tem como contexto a Guerra Fria, tema que volta e meia preciso pesquisar para relembrar, aqui outro bônus da leitura.



Parque Gorki de Martin Cruz Smith é um livro desafiador e ao final recompensador. A narrativa e cenários, combinados ao país, época e pano de fundo do crime, são a mistura ideal para o enredo que parece policial, pode ser drama, aventura, ação e suspense, e no final é uma incrível trama de conspiração. Gosta do tema pode incluir Parque Gorki na fila de leitura e tomara que alguma editora, em algum momento, se interesse em lançar uma nova edição do livro no Brasil. Por aqui eu torço de dedos cruzados (e olhos e ouvidos atentos).

Beijos!

Fotos: Nine Stecanella
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