Ciranda de pedra de Lygia Fagundes Telles

26 de dezembro de 2018



Ciranda de pedra
Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Abril Cultural
Edição: 1982
Páginas: 190
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O trajeto cheio de conflitos da vida de uma mulher, desde a infância até os vinte anos de idade. Filha de pais separados, a personagem central se vê obrigada a dividir-se entre dois mundos radicalmente contrastantes. De temática moderna, a obra aborda a desestruturação do grupo familiar e a dissolução dos costumes, focalizando a relação personagem/mundo e as consequências de tal relacionamento sobre as camadas mais profundas de seu psiquismo.

Uma das leituras favoritas do ano, outra da incrível coleção Grandes Sucessos, prova que a estante sempre tem surpresas boas para oferecer e as escolhas aleatórias são das experiências literárias mais legais para o leitor. Ciranda de pedra de Lygia Fagundes Telles trata, em dois momentos diferentes, a vida de Virgínia e sua família.

COMO TUDO COMEÇA
A primeira parte do livro se passa na infância de Virgínia e ela mora com a mãe e Daniel, seu padrasto. Uma outra mulher vive na casa para ajudar com nos cuidados gerais, especialmente no suporte com a doente. Desde o fim do casamento, na verdade antes disso, Laura - a mãe de Virgínia enfrenta um problema mental irreversível. A situação é simples, beirando a necessidade, e a jovem protagonista gostaria de viver como suas irmãs na casa do pai.



Lygia Fagundes Telles constrói o panorama da vida de Virgínia com tantas camadas que é surpreendente como a narrativa é madura, singela e muito sincera – ao mesmo tempo que o leitor sente e acompanha tudo pelos sentimentos e perspectiva de uma criança. Sem dúvida minha primeira experiência com a autora foi positiva e espero conhecer outras histórias em breve.

A personalidade sonhadora de Virgínia, e até mesmo a idade, faz com que ela não compreenda no todo todas as informações que recebe, seja durante os delírios da mãe ou em meio as indiretas das irmãs, e o leitor assim como a personagem vai guardando essas declarações e montando o quebra-cabeça familiar.

- Mas a gente não é só isso, entende? Dentro desse corpo, Virginia, há como que um sopro, isso é o que a gente é de verdade. E isso não morre nunca. Com a morte, esse sopro se liberta, vai-se embora varando as esferas todas completamente livre, tão livre... O corpo se apaga como uma lâmpada, esfria como... – E Daniel fez uma pausa vagando o lhar ao redor – Exatamente, como um ferro de engomarque você desliga: assim que a tomada é arrancada, o ferro vai esfriando, esfriando, e se transforma apenas em um peso morto, sem calor, sem vida.
página 52 e 53

A primeira parte do livro tem um desfecho marcante e Virgínia que sonhava morar com o pai e as irmãs, vê esse desejo morrer ao chegar na casa e perceber que nada do que idealizou na prática poderia acontecer. Essa reflexão, de perdas e ganhos e rancores familiares é um dos pontos altos da história.

QUANDO A VIDA ADULTA CHEGA
A segunda parte de Ciranda de pedra é com a volta de Virgínia para casa aos 20 anos. O primeiro ponto marcante é o amadurecimento e a personalidade da personagem, que na vida adulta tem uma perspectiva muito mais realista e melancólica, pelo menos do meu ponto de vista, e portanto muito mais próxima da jovem que eu já fui. Me identifiquei demais com a Virgínia nesse trecho. 



As diferenças familiares também ganham enfase nesse trecho, uma vez que Virgínia percebe a hipocrisia das irmãs, cunhados e amigos próximos. Ainda com uma lembrança meiga da menina, os personagens (e o leitor), levam um choque ao perceber o humor ácido, as ideias claras e diferentes de todos que orbitaram a vida da infância e as atitudes indiretas da protagonista.

A melancolia da personagem e o desmanche da família são temas essenciais para se pensar Ciranda de pedra, assim como amizade, traição e paternidade, todos os assuntos interligados. A loucura e o suicídio também são presentes na história, porque são consequências recorrentes de traumas e desilusões. Embora não sejam temas centrais, são importantes para pensar sobre o enredo e a vida, que todos os dias apresentas novos desafios.

Vi então que ele estava na tarde, no todo imenso e na parte infíma, estava na luz do sol e na sombra rendada que a teia da aranha projetava no chão, estava nas folhas aos meus pés e estava naquele passarinho que passou como uma seta sobre minha cabeça. Quando respirei, era como se tivesse respirando Deus.
página 118

Ciranda de pedra foi uma leitura favorita e eu estava ansiosa para escrever uma recomendação e registrar essa lembrança no Estante da Nine. Adorei meu primeiro contato com Lygia Fagundes Telles e com certeza ela vai aparecer nas leituras futuras. Recomendo o livro para quem gosta de literatura brasileira, drama, família e sociedade.

Vídeo de opinião publicado no canal do Estante da Nine
 

Beijos!

Foto: Nine Stecanella
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