Pais e filhos de Ivan Turgueniev

23 de maio de 2017



Pais e filhos
Autor: Ivan Turgueniev
Editora: Abril Cultural
Edição: 1981
Páginas: 238
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No início da década de 1860, dois eventos transformaram significativamente a sociedade russa: o fim da servidão e a fundação do movimento "Terra e Liberdade", organização secreta que lutava contra as autoridades e instituições oficiais. A abordagem desse contexto fez com que Pais e filhos despertasse uma das maiores fendas da história da literatura russa. O termo "niilista" se popularizou e Ivan Turguêniev (1818-1883) foi acusado de ser responsável por atos criminosos cometidos por radicais influenciados por sua obra. Na trama, o jovem Arkádi Nikolaitch, acompanhado de seu amigo e mentor Bazárov, volta à propriedade de sua família após formar-se na universidade. Bazárov é um personagem singular: despreza qualquer autoridade, é antissocial e se autoproclama um "niilista".

Pais e filhos foi meu primeiro contato com Ivan Turgueniev e como aconteceu com todos os russos até aqui eu adorei. A história acompanha Arcádio e Bazárov, amigos que estão de volta a casa dos pais depois da faculdade. Apesar de sermos apresentados a família de Arcádio e ao próprio personagem inicialmente, Bazárov é o verdadeiro protagonista da história e sem dúvida sua ideologia niilista foi o que me chamou a atenção durante todo enredo.

Ivan Turgueniev justifica o título da trama já nas primeiras páginas: assim que acompanhamos a chegada de Arcádio a sua casa fica evidente para o leitor a grande diferença de pensamento do personagem em relação aos seus pais, e como isso afeta a permanência dele por ali. O extra é o grande embate entre Bazárov e o tio do amigo, que com seus modos ingleses é visado pelo niilista com críticas ácidas sempre que possível. Depois de certo trecho da história os dois personagens protagonizam uma das cenas mais pitoresca e emblemáticas do livro (eu gostei muito e achei significativa).



O interesse romântico dos dois personagens é inserido logo depois. Esse aspecto é importante principalmente porque a partir da estadia na casa de uma viúva muito autêntica, Bazárov questionará sua ideologia niilista e verá sua sanidade ruir. Ao mesmo tempo que nega a paixão e tudo que possa poetizar a vida, não para de pensar numa mulher que dificilmente terá. A lição aqui serve para todos nós, que em algum momento ou outro começamos a questionar nossas crenças e ideologias e precisamos rever conceito sobre a vida (o universo e tudo mais), e provavelmente por isso eu tenha gostado do tema niilismo. E também porque tive pouco contato com a ideia antes de Pais e filhos.

Se o choque na casa de Arcádio foi grande, quando conhecemos os pais de Bazárov a diferença cresce ainda mais. Eu simpatizei demais com as duas famílias, mas sem dúvida entendi a mensagem do autor ou pelo menos interpretei da minha maneira, que é: não importa o quanto gostamos ou somos amigos dos nossos pais, sempre vai existir a barreira entre a visão e a responsabilidade dos pais em relação ao filhos, que faz parte de outra geração e consequentemente será influenciado por isso.



A relação de Arcádio e Bazárov é outro ponto que gostei na leitura. Embora o niilista, até por ser mais velho, tente influenciar Arcádio para sua ideologia, fica claro desde o começo que as coisas não acontecem literalmente. Tanto que o final de Bazárov é pessimista, por toda sua ideologia, dilemas e decisões não tomadas, enquanto Arcádio tem um desfecho tradicional e quase comum, feliz e bem satisfatório. De certa forma sempre existiu um paradoxo entre os dois protagonistas.

O foco do livro é principalmente em Bazárov e Arcádio, mas Ivan Turgueniev também trabalha outros temas como a nova relação do pai de Arcádio com uma jovem moça e como ele mesmo se põe em situação constrangedora por não assumir o novo amor, o tio de Arcádio que sem dúvida destoa de todo ambiente interiorano, o dilema de uma mulher que se apaixona mas de jeito nenhum quer perder a independência e a grande mudança que há nos jovens quando finalmente se apaixonam.

Ao final de Pais e filhos pensei muito sobre a história, em como é fácil se identificar com temas familiares e como dificilmente entenderemos nossos pais até sermos pais, se um dia formos. Estamos constantemente mudando e questionando nossas ideologias e isso é bom, afinal somos plurais e é importante entender que verdades absolutas quase nunca fazem bem. Ou nunca são tão positivas quanto parecem.



Outro ponto que vale ressaltar é que Ivan Turgueniev é citado como o autor russo mais influenciado pelos costumes ocidentais e em Pais e filhos isso é perceptível. Os destinos citados para viagem quase sempre apontam para a Alemanha, o refinamento, a decoração e os modos são tipicamente ingleses enquanto as referências culturais e sociais citam a França. Entre os autores da Rússia que li até agora só percebi essas características acentuadas em Pais e filhos.

Pelo tanto que eu escrevi ficou evidente que eu recomendo a leitura, né? Minha nota para Pais e filhos foi de cinco estrelas no Skoob e favorito. Meu primeiro contato com Ivan Turgueniev foi ótimo principalmente porque Pais e filhos me fez pensar em muitos temas que há algum tempo não dava atenção. Vocês leem autores russos? O que recomendam?

Beijos!

Fotos: Nine Stecanella
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